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Novo endereço

agosto 27, 2012

O Boteco cresceu e mudou. Na verdade, já faz tempo. Mas nunca é tarde para avisar os amigos que passaram por aqui.

O novo endereço - http://espn.estadao.com.br/blog/thiagoarantes

Neurocirurgiões

junho 29, 2012

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Espanha e Itália decidem a Eurocopa no domingo. São as duas últimas campeãs do mundo, e, portanto, falar de justiça ou injustiça aqui não é das coisas mais sábias. Espanha e Itália foram campeãs mundiais com merecimento. Uma perdeu para a Suiça, a outra ganhou da Austrália graças a um pênalti mandraque. Mas, até aí, o pênalti da final de 1990 também ajudou a Alemanha, a Argentina teve ‘la mano de d10s’, e o juiz de Brasil x Bélgica, em 2002, mereceria uma estátua em praça pública em algum lugar de Salvador, Ouro Preto ou São Paulo.

Espanha e Itália decidem a Eurocopa no domingo, e a ideia aqui não é questionar se as duas seleções mereceram chegar à decisão do torneio europeu. Menos ainda, se as duas mereceram ganhar as duas últimas Copas do Mundo. Deixemos a Itália de lado e falemos, por hoje, apenas dos espanhois.

Os espanhois e o discurso da eficiência. “A Espanha não é chata, é eficiente”.

Como se as duas coisas fossem opostas, fossem antônimos em um diciónario futebolístico que ainda não consigo ler. A Espanha é chata E eficiente. Ou talvez seja chata POR SER eficiente. É o jeito de eles jogarem, é o jeito com o qual venceram uma Euro, uma Copa, e se encaminham para o terceiro título seguido em grandes torneios. Algo que ninguém conseguiu.

Perguntam se a Espanha está errada de fazer o que faz, e digo que não. Cada um consegue as vitórias à sua maneira. O Brasil foi campeão em 1994 com uma cultura de valorizar posse de bola e um treinador que dizia que “o gol é um detalhe”.

A Espanha faz o mesmo, mas tem melhores passadores – e, por isso, mais posse de bola – e não tem um gênio como Romário para definir as jogadas. Portanto, com três geniais meias/volantes, toca a bola infinitamente, indefinidamente, antes ou depois de balançar as redes. Tem quem goste. Eu não gosto.

E não me venham, por favor, comparar a Espanha ao Barcelona. Primeiro, porque o Barcelona tem Messi. O melhor jogador do mundo na atualidade, um dos cinco maiores da história. Segundo (precisa de outro motivo?), porque não me lembro de ver o Barcelona fazer 1 a 0 e um adversário e ficar tocando a bola sem entrar na área. Pode ter acontecido, mas não me lembro.

O Barcelona é eficiente, mas é mais do que isso. A Espanha é eficiente e não precisa ser mais do que isso. Talvez por não conseguir, mas com certeza por não fazer questão.

Eficiência. Esta palavra que jamais pensei ver descrita como a maior qualidade de um time de futebol. Esta palavra que eu sempre associei a engenheiros, a bancários, a revisores de texto. Eficiência, esta palavra que é fundamental para tantas profissões fundamentais. O que seria de um neurocirurgião ineficiente?

Mas no futebol, a eficiente tem de ser atributo, não justificativa. Tem que ser um meio, não o fim. A eficiência tem de ser o arco, não a flecha.

Espanha e Itália jogam pelo título da Eurocopa no domingo. Será um título da eficiência, seja de que lado for.

E o futebol, perdeu? Não, o futebol não perde nunca.

Mas, neste caso, ele empata sem gols e ganha nos pênaltis.

A minha Indy

abril 30, 2012

Não tenho certeza sobre datas, mas o ano era possivelmente 1988. Na casa de um tio, uma TV de 20 polegadas ligada a todo volume e carros coloridos andando em círculos, sem freios, sem medo, em um carrossel sem fim.

Foi assim, aos 5 ou 6 anos de idade, que conheci a “Fórmula Indy”. A Fórmula 1 já estava na minha cabeça e no meu álbum de figurinhas que tinha Satoru Nakajima, Eddie Cheever comendo maçã e Stefan Johansson “capacete de figo”. O futebol, da seleção brasileira de Carlos Alberto Silva levando 4 a 0 da Dinamarca, também.

Agora era a vez da Indy. A Indy de Emerson “Futipaldi” – foi assim que eu o chamei nas primeiras três corridas – do vilão Rick Mears, dos Andrettis, Unsers e de muitas perguntas. “Pai, mas eles correm pai contra filho? Um dia a gente vai correr um contra o outro?” – “Não, nem carteira de motorista eu tenho.”

A resposta matava um dos meus sonhos, mas eu não desistia. O velho, naqueles idos de 1980-muitos, era a cara do Bobby Rahal. Enquanto eu não chegasse à Indy, teria tempo para aprender mais. Para decorar os campeões, saber que havia um, dois, cinco, seis Scotts, descobrir que John Andretti era primo do Michael. E, claro, treinar beber leite sem Nescau, para quando vencesse as 500 Milhas de Indianápolis.

Os anos se passaram e a Fórmula 1 virou dever cívico, obrigação familiar. Não se podia perder uma corrida, era tradição de domingo, programava-se onde seria, com quem seria, em qual TV, mas na casa do tio fulano tem uma área maior, levamos a TV de casa. Enfim, a F-1 passou a ser uma relação estável.

A Indy era a amante. Aquela com quem eu me encontrava meio escondido, no domingo à tarde, sem muita gente por perto. Os caracteres em letra Impact amarela em itálico, as imagens das mulheres dos pilotos, o repórter grisalho da ESPN – e ali eu tive meu primeiro contato com a emissora em que hoje trabalho – o metanol do fogo invisível.

A Fórmula 1 era o mundo em que todos se sentiam no direito da dar palpites, todos se achavam conhecedores. A Indy era o meu mundo. O mundo em que Arie Luyendyk começava as 500 Milhas de Indianápolis sem uma única vitória no currículo e surpreendia a todos. O mundo em que havia colombianos, mexicanos, chilenos. Em que um senhor de 50 anos dividia curvas com jovens de 20, 21; em que o piloto corria pela equipe que ele mesmo montou. Automobilismo na essência.

Rick Mears: o "vilão" de uma Indy com alma

Mas um certo dia, alguém começou a ter ideias demais. E a Indy passou a ter marketing, coffee break, PRs, managements e frescuras. E começou a reverberar na Europa, incomodando a Fórmula 1. A Indy passou a ser mais negócio e menos competição.

Aí veio o primeiro golpe: no fim de 1992, Bernie Ecclestone armou a ida do campeão da F-1 para a Indy, e vice-versa. O baixinho inglês empurrou Nigel Mansell para a melhor equipe da Indy, com direito a 5 mil quilômetros de testes; e Michael Andretti chegou à F-1 com uma McLaren ruim, ao lado do melhor piloto do mundo na época e praticamente sem treinos.

Mansell foi campeão na Indy; Andretti foi um fiasco na Fórmula 1.

Nos anos seguintes, a Indy ainda se reergueria às custas de nomes como Jacques Villeneuve, que foi campeão na F-1 em 1997. Mas, enquanto o canadense propagandeava a qualidade dos pilotos da Indy na Europa, a categoria norte-americana já não existia mais nos moldes que eu a conheci.

Em 1996, o racha transformou um campeonato carismático em dois – um, sem Indianápolis; o outro, sem todo o resto. A Indy morreu.

Durante mais de uma década, as duas seguiram caminhos separados: enquanto a IRL virava uma máquina de moer gente, a Cart tentava expandir-se pelo mundo, perdendo dinheiro na Europa e fãs nos Estados Unidos. O reencontro, em 2008, não conseguiu resgatar a aura da categoria nos anos 1980-90.

Em 2012, quatro anos após a reunião, a Indy guarda elementos daquele campeonato que me conquistou na infância. Há ainda uns poucos pilotos-personagem, com carisma. Há, também, aquele quê de garagismo, sem pilotos superestrelas, com chefes de equipe que andam de chinelo e fãs que conseguem tirar uma foto com seus ídolos.

Mas, por força de uma disputa por audiência que só atinge ao público, a Indy é vendida no Brasil como uma concorrente da categoria de Bernie Ecclestone. Fórmula 1 e Indy não são concorrentes – e, se já se trataram assim, foi um erro estratégico de ambas. São categorias distantes e distintas; como comparar futebol a futsal.

Na ânsia de tornar a Indy popular entre o público brasileiro, criam-se distorções que matam justamente a essência da categoria. “Torcer para os brasileiros” é uma delas. Uma cópia lamentável do que de pior se fez na Fórmula 1, entre tantas coisas boas que foram feitas.

A Indy nunca foi legal “por causa dos brasileiros”. Sempre foi fascinante por conta dos veteranos barrigudos, dos jovens impetuosos, dos azarões que tinham tardes felizes e venciam corridas improváveis. A Indy que me fascinava era automobilismo puro, em que as vitórias ou derrotas não tinham nacionalidade.

Era a Indy de Robby Gordon e Paul Tracy chegando junto dos velhotes, de Unsers e Andrettis dividindo vitórias em família, de Derek Daly, Kevin Coogan, Pancho Carter disputando pontos, De Guerrero rodando na volta de apresentação, de Vitolo e Salazar complicando a vida de todos. A Indy de ****king Hiro Matsushita.

A Indy que foi minha amante secreta na infância, a Indy de que sinto saudades, não se importava com a Fórmula 1. Ou com a nacionalidade de seus vencedores. Era corrida de carros, com churrasco, bigodões e moças de cabelo permanente usando roupas floridas com óculos escuros, até que o gerador de caracteres mostrava “Sneva’s wife”.

A mulher de Tom Sneva passava a ser a musa da semana. Até que, na semana seguinte, outra ocupasse seu lugar.

E assim era a Indy. Sem glamour, sem chatices e sem complicações. Do jeito que a infância e a vida têm de ser.

Bolerama

abril 24, 2012

Dentre os meus poucos orgulhos esportivos, está o fato de ser um razoável jogador de boliche. Faço ali meus 120, 130 pontos. Com um pouco mais de sorte e preparo, os 150 costumam chegar. O boliche, hoje raro na minha vida, foi durante algum tempo uma válvula de escape.

Era setembro de 2002, minha mãe estava operada – tirou um tumor benigno do cérebro – e a faculdade estava de greve. Entre uma visita e outra ao hospital, eu costumava andar (muito) até o shopping de Goiânia onde havia a única pista de boliche na cidade. Tempos outros, a diversão era barata. Eu ia sozinho, devia pagar uns 15 reais por uma hora de jogo, e então enfileirava quatro, até cinco partidas.

Foi também em 2002 que, trabalhando em um site de Fórmula 1 (o hoje finado F1 na Web), recebi um e-mail de um rapaz de 16 anos, um certo Emanuel, que se dizia maravilhado pelo jornalismo. Ele queria trabalhar com esportes, queria saber das coisas, conhecer o mundo, esses sonhos de gente jovem. Do alto de meus 19 anos tive a prepotência de dar dicas, orientar o rapaz.

Devo ter falado muita besteira, porque ele nunca mais mandou e-mail nenhum nos nove anos seguintes. Talvez tivesse desistido do jornalismo, alertado por alguém com mais de 19 anos que tivesse o mínimo de parafusos na cabeça; ou, quem sabe, fez faculdade e acabou fascinado por outras searas – politica, economia, celebridades.

Quem sabe ele não teria se tornado jogador de boliche?

Era um dia de outubro de 2011, e a pauta daquele dia nos Jogos Pan-Americanos era diferente: cobrir uma competição do esporte mais Fredy Flintstone do mundo no carismático Bolerama Tapatío. Sim, o boliche é esporte pan-americano, tem torcida, gritos e óleos especiais para cada dia, que tornam-se uma variável a mais na disputa. Um xadrez com pinos e bola.

Não era de se estranhar, dadas as circunstâncias, que a cobertura do boliche fosse relegada a uns míseros e corajosos jornalistas. Naquele dia, havia apenas eu e mais dois. Um deles trabalhava para o Comitê Olímpico Brasileiro. O outro, para o Portal Terra.

Quando estava sentando, mandando para a redação uma matéria que não concorreria ao Pulitzer, ouço a pergunta. “Você é o Thiago Arantes que trabalhou no F1 na Web?”

Diante da resposta afirmativa, descubro que o colega do Portal Terra é Emanuel Colombari, o estudante que, nove anos antes, havia me pedido dicas sobre a profissão. E a quem eu, num ataque de soberba hoje imperdoável, aconselhei que fizesse tais e tais coisas.

É claro que não me lembro dos conselhos que dei ao ‘Mané’. Mas pelo jeito, das duas uma: ou eram realmente bons e ele seguiu; ou eram uma porcaria e ele percebeu rápido.

Agora o Mané vai pra Londres, a segunda cobertura que faremos juntos, mesmo que por veículos diferentes. Ele diz que foi tudo culpa daquele e-mail de 2002, como ele explica nesse texto mentiroso AQUI.

Eu acho que não.

Vamos marcar um boliche para resolver isso.

Chael Sonnen, Túlio Maravilha e os hat-tricks

abril 24, 2012

Há quem diga que a graça do esporte está nos grandes eventos. A final da Copa do Mundo, a decisão por pênaltis que define a história de um time, a temporada da Fórmula 1 indefinida na última curva, o nocaute impiedoso numa luta pelo cinturão do UFC.

Engano dos grandes.

Os grandes eventos são apenas o momento em que todos olham ao mesmo tempo para o mesmo lugar. São a consagração de um, do vencedor. Um prato cheio para quem gosta de bater no peito e gritar “é campeão”; um capítulo a mais – importante, mas ainda assim apenas um capítulo – para quem gosta de esporte.

A graça do esporte está, também e ainda mais, em outros lugares. O Arábia Saudita x Bélgica que termina com um golaço, os três pênaltis perdidos no mesmo jogo, a corrida em que o piloto japonês chega em terceiro e chora no pódio.

Ou o desafiante a um cinturão do UFC colocando um óculos com nariz e bigode durante uma entrevista coletiva.

A cena insólita foi apenas uma das protagonizadas por Sonnen nesta terça-feira, no evento que remarcou a revanche com Anderson Silva para Las Vegas, em 7 de julho. Sonnen fala besteira, muita besteira. Mas é carismático, veste a máscara do vilão e não se leva a sério.

É um personagem fascinante, destes que tornam o esporte melhor. “Ah, mas ele falou mal do Brasil”, dirão alguns. Respondo: as provocações existem desde sempre e fazem parte do jogo.

Fala muito pior do país um jornalista que grita “Brasil!” durante a entrevista. Fala mal, também, Anderson Silva, ao começar a resposta a uma pergunta elogiosa com um “Ufa, finalmente uma pergunta inteligente!”. Seria lindo se todos os repórteres “burros” que perguntaram antes simplesmente deixassem a entrevista. Jamais acontecerá.

Sonnen é necessário ao UFC. Entre lutadores que dizem sempre “estou pronto para a luta” e “vou dar porrada nele”, uma faísca de ironia e declarações propositadamente desastradas ajudam a tirar as coisas do eixo, a sair do lugar-comum. (Exceção feita, claro, à infeliz associação com o Palmeiras, que por um momento transformou a luta em um barril de pólvora de torcidas organizadas. Pelo visto, a situação resolveu-se por ora).

Por isso, não acho justo detonar Sonnen. Como também não vejo justiça nas críticas a Túlio, em sua busca incessante pelo gol que pretende chamar de milésimo.

Não, Túlio não tem 986 gols. Deve ter, fazendo as contas aqui meio rápido, uns 500. O que, convenhamos, é muita coisa.

Neste fim de semana, o artilheiro marcou mais um, o primeiro pelo Tanabi, da Segunda Divisão paulista – na prática, a quarta divisão.

Falar que a lista de Túlio é uma farsa, isso todo mundo já falou. Mas há que se encontrar poesia na busca incessante do veterano pelo milésimo.

Aos 42 anos, Túlio faz uma romaria que inclui times pequenos, jogos escondidos, arquibancadas vazias. Tal qual um palhaço de circo de interior, tenta tirar risadas de um público que prefere assistir a jogos em telões de led com todas as polegadas e em alta definição.

Túlio já não corre, tem poucos cabelos e não exibe a precisão que me fez admirá-lo em 1989 e odiá-lo seis anos depois. Mas tem algo que falta à maioria dos jogadores que desfilam por aí com panicats e blazer-sobre-camisa-branca: Túlio tem vontade.

A busca de Túlio pelos mil gols é mambembe, sim. Mas é futebol na sua essência, o futebol que eu aprendi a amar: campos esburacados, alguns barrigudos, torcedores que xingam e o bandeirinha responde com outro palavrão. É o futebol sem fair play, winger ou hat-tricks.

Se Chael Sonnen tira o UFC do buraco negro do “vou dar porrada nele”, Túlio tira o futebol da numeralha de 4-4-2, 4-3-2-1 ou 3-5-2, dos estrangeirismos de botequim, do marasmo de “respeitar o adversário para conquistar os três pontos”. Túlio não faz hat-tricks. Ele faz três gols, quando muito guarda, estufa, balança a rede três vezes.

É claro que o esporte precisa de gente como Anderson Silva, Fernando Alonso, Bolt, Phelps, Neymar e Messi.

Mas precisa, talvez ainda mais, de caras como Chael Sonnen e Túlio Maravilha.

Furo

março 29, 2012

O jornalismo é uma profissão dessas que a gente meio escolhe, meio é escolhido. Parece filosofia barata, mas não é. Tem gente que passa quatro anos colecionando notas boas na faculdade, entra numa redação e não dura três meses. Liga pra mãe chorando porque um avião caiu no sábado à noite e passou a madrugada contando vítimas.

Tem gente que nem faz faculdade, mas sabe olhar o mundo, sabe ler, sabe escrever. E quem sabe fazer essas três coisas já está à frente de muita gente hoje em dia, é quase como falar francês no Rio do século 18. Se souber que o grande compromisso do jornalista é com o leitor e que o maior produto é a informação, é quase um desperdício que faça outra coisa na vida.

Entre esses dois extremos complementares, há uma fauna inteira de jornalistas que sai dos bancos de faculdade e das mesas de botecos pelo Brasil. O primeiro tipo não é melhor que o segundo – o ideal é ser um pouco de ambos, na verdade.

Mas, lidemos com fatos: o jornalismo anda meio mudado ultimamente. Os bons profissionais continuam por aí, os ruins também, os péssimos, idem. Como sempre foi. Mas, com os twitteres e facebooks da vida, com a internet publicando notícias em linhas de montagem, um dos elementos da profissão acabou se perdendo no vento.

“Não existe mais furo”, deve ter dito algum professor da minha cada vez mais longínqua formação universitária. “Nada se cria, tudo se copia”, diria outro, mais Lavoisier, menos Da Vinci.

Pois nesta semana, houve um furo no jornalismo esportivo-televisivo deste Brasil. Diego Ribas, de quem tenho o orgulho de ser amigo, publicou em primeira mão quem são os finalistas do TUF – o reality show do UFC que, em sua primeira versão brasileira, tem a Globo como principal divulgadora.

Diego falou com mais de 70 pessoas para chegar aos quatro nomes. Conversou com técnicos, com lutadores, com a moça da faxina da academia, com o porteiro do prédio. Falou com todo mundo. Cruzou dados, confirmou com gente que nem deveria ter dito nada a ele, mas disse. Fez jornalismo, na mais simples das definições.

E, por exercer a profissão que escolheu, virou alvo. Foi ameaçado de morte, causou a ira de outros jornalistas, de lutadores, de técnicos. Foi perseguido por “fãs” de MMA que ficaram decepcionados com a revelação dos vencedores. Teve início, então, uma série de absurdos. Vários deles eu tive a oportunidade de ler. Abaixo, os mais frequentes, com meus comentários.

“Isso não é furo. Isso é spoiler. É como ele revelar o final de um filme”.

Não, não é como revelar o final de um filme. A comparação mais próxima que consigo fazer, ainda no mundo do Cinema, é outra: você é jornalista da CNN, a FOX transmitirá o Oscar no domingo e você descobre quem foram os vencedores no sábado. Se você é jornalista, mesmo, você publica. Simples assim. Se você quer pensar no show, pensar em não estragar a surpresa, há outras profissões – muitas delas dentro da Comunicação, mesmo – que parecem mais adequadas.

“Ele só publicou isso porque trabalha no R7, que é da Record, rival da Globo”

É notório que a Record tem feito reportagens contrárias ao MMA. Quase todas são tendenciosas, com viés crítico que falta a outras questões – notadamente as religiosas. Mas, neste caso específico, pensar assim é uma bobagem. Trabalhasse no IG, no UOL, na ESPN, na Band ou em qualquer outro lugar, Diego teria conseguido os nomes. E caberia a cada veículo julgar sua publicação pertinente ou não.

“Se fosse o resultado do Aprendiz, ele publicaria?”

Trabalhando em um site da Record, parece-me óbvio que não. Exatamente por isso não foram os sites de SporTV ou Globo que publicaram os vencedores do TUF. Não se é mais ou menos jornalista por isso. É uma questão editorial: na Record, não se publica o resultado do Aprendiz; na Globo, não se vaza o final da novela. Curiosamente, nos últimos anos a emissora carioca tem gravado os últimos capítulos horas antes de eles irem ao ar. Talvez passem a fazer isso com o TUF, também.

“Publicar o resultado do TUF é prejudicial ao MMA”

Essa é uma das questões que mais me incomoda. Não acho que publicar resultados de um reality show tenha a capacidade de derrubar um esporte. Mas, convenhamos, e se prejudicar? Publicar que jogos de tênis foram armados por casas de apostas também prejudica a imagem do tênis, publicar casos de doping prejudica o ciclismo, publicar escândalos de resultados mancha a imagem do futebol. A função do jornalista não é zelar pela imagem de esporte nenhum. É informar.

Nos Estados Unidos, o site Sherdog – um dos maiores do mundo – vazou os vencedores de uma das edições do TUF. Como represália, o UFC nunca mais deu credenciais ao site para a cobertura de eventos. É possível que o mesmo aconteça com Diego, com a Record, com o R7 e com quem mais resolver ir contra o sistema, e aqui me incluo.

Fazer jornalismo – aquele que dá furos, que informa, que critica – no mundo do MMA é como entrar em um octógono contra um rival maior e mais pesado. Por isso, são poucos os que desafiam. É mais fácil ficar no córner do favorito.

Afinal, fazer amigos não dói. Fazer jornalismo pode doer.

Terça-feira, 13

março 7, 2012

Quem me conhece bem sabe que não sou do tipo que ­gosta de organizar festas. Quem me conhece melhor ainda sabe também que fico estressado, angustiado, sonhando dias seguidos com um evento vazio, em que ninguém aparece. Chove no dia, cai uma ponte, tem final do BBB.

Foi por isso que não fiz nada em três dos meus últimos quatro aniversários.

Mas agora não tem muito como fugir. E, a essa altura do campeonato, todo mundo que se conectou em Twitter, Facebook, ou que esbarrou comigo em algum lugar, já sabe: dia 13 de março, terça-feira, é dia do lançamento do meu primeiro livro.

O primeiro de uma série, espero. Mas não prometo que o segundo sairá em 2012, ou 2013, ou mesmo antes da Copa no Brasil. Vai sair quando estiver maduro o suficiente para sair. Tenho meus projetos, um par de convites, um romance adormecido em algum bloco de notas há três ou quatro anos.

Mas o que importa, agora, não é meu segundo livro, nem o terceiro. É o primeiro, “Os dez mais do Santos”, uma coletânea de histórias de dez dos maiores jogadores da história do clube mais vencedor do Brasil. E dá pra dizer, também, de dez dos grandes nomes da história do futebol brasileiro. Desde Feitiço, craque dos anos 20-30 que desafiou o presidente da República, até Neymar, craque de hoje e de amanhã, que desafia botinadas nos carcomidos gramados brasis.

O prazer que tive ao entrevistar jogadores como Pepe, Zito, Lima e Carlos Alberto Torres foi algo especial para alguém que cresceu ouvindo as histórias deles e de muitos outros ídolos – do Santos, do Corinthians, do Palmeiras. Espero que todos possam notar, em cada uma das 184 páginas, o quanto fiquei feliz em escrevê-las.

E, quando me refiro a todos, tenho a pretensão de ser ouvido não apenas pelos santistas. Afinal, a história do Santos é, também, a história do Corinthians, do São Paulo, do Palmeiras, do Vasco, do Botafogo. É a história de um século de futebol no Brasil.

Para mim, que desci do avião em São Paulo há seis anos conhecendo meia-dúzia de pessoas por aqui – mais da metade delas só pela internet – a terça-feira 13 é mais do que o lançamento do meu primeiro livro.

É a chance de conhecer ainda mais amigos, de rever antigos companheiros de batalhas, de perceber mais uma vez que essa história de que não tenho família por aqui é a maior das mentiras.

Quem puder ir, apareça (o convite está abaixo). Pode não ser por mim, pode não ser pelo Santos. Mas vai ter espumante grátis. Seis garrafas. É melhor correr.

(Quem não puder ir ao lançamento pode comprar o livro nas melhores livrarias ou nos sites da Travessa e da Saraiva)

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